Política

Ressuscita-me

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Foi um banquete, mas não foi um prato leve a Virada Cultural. Está sendo difícil digerir a experiência assim, de bate pronto. E publicar um texto antes que o assunto seja atropelado pela próxima polêmica nas redes. Mas, mesmo correndo, insisto em dizer algo. Nem tanto pela necessidade de me expressar sobre uma ou outra performance; principalmente por fazer questão de resistir à automática agenda do medo que tenta reduzir um evento tão complexo e significativo quanto a Virada a um placar de B.O.’s.

Da minha parte foram 16 horas de andança, ótima companhia, picos de euforia, comoção e dissolução psicodélica nos melhores shows de rua que já vi. Não sofri nem vi qualquer violência séria. Mas não quero usar minha madrugada bem sucedida (nem omitir minha conveniente credencial de imprensa) como prova do êxito do festival. Assim como não aceito que mortos, feridos e furtados sejam provas do fracasso. Trágicos ou epifânicos, são apenas recortes, leituras arbitrárias sobre 24 horas de uma colossal terapia de grupo. Cujo saldo não pode ser entendido a partir de exemplos, mas, talvez, a partir de um contexto que transcende palcos e diferenças políticas.

Imagino que direita e esquerda concordem nesse ponto: há muito tempo nossa cidade lida com dolorosas consequências de uma cisão social, econômica. Dolorosas, mas artísticamente férteis. E que se reflete em divisões muito claras na geografia e nos interesses culturais dos diferentes grupos de São Paulo. São essas fronteiras, de espaço e estilo, que se perdem subitamente na Virada. Uma curadoria musical ampla o suficiente para fundir na mesma multidão gente que normalmente só se enxerga através de janelas de ónibus e automóveis – ou através de ideias preconcebidas. Eis o caráter curativo, reconciliador, e perigoso, potencialmente explosivo, dessa festa.

Mas não há plano B: sem se olhar no espelho, São Paulo nunca vai fazer ter paz.

Os exemplos seriam longos demais, e relativos demais, para eu provar uma tese que, no fundo, tem mais lastro na minha intuição: mesmo sangrando, São Paulo está evoluindo. Ou melhor, criando um ambiente mental, um sentimento de coletivismo e de retomada da cidade cada vez menos sutil. Uma tendência que pode ser medida pelo florescimento de novas e mais frequentes ocupações de rua, pela adesão que agendas positivas vem gerando na cidade, pela erosão gradual do tabu da política em nossa geração. E, também, pela crescente histeria dos reacionários inconformados com o avanço de ideias e articulações progressistas. Pode ser ingenuidade minha, mas não consigo ver de outra forma: depois de ser cozida na ultra-tacanhice Kassabista, São Paulo parece estar pronta para, como é de seu costume, renascer. A Virada prova: não há parto sem dor.

foto (29)

Haddad assiste com seu filho ao show dos Racionais MC’s (fotos B. Torturra)

E agora, preciso me render aos episódios que vivi na Virada. Não como prova do que digo. Mas como as os únicos relatos que tenho para ilustrar essa disputa narrativa que está em curso em São Paulo: a prisão e a consagração de Paulinho InnFluxus ao apontar seu laser rosa choque na cabeça reaça de Lobão; os holofotes do Conjunto Vazio iluminando o potencial dos prédios desocupados do centro de São Paulo; a presença de Haddad no show dos Racionais MC’s; o discurso histórico em que Mano Brown poupa a polícia, fala em consenso, e pede um exame de consciência individual ao seu público; a solidariedade anônima de pessoas que se dispuseram a carregar desconhecidos derrubados pelo vinho químico aos poucos postos de socorro; a maconha que George Clinton, no palco, pediu ao público – prontamente atendido sob a impotente vista grossa da PM; a classe média que teve que passar a pé, sem a mediação de machetes ou parabrisas, pelas ruas da cracolândia; a presença massiva de crianças e adolescentes no palco funk, consagrando popstars que voam acima dos radares do mainstream; o difícil e necessário exercício de paciência e compreensão ao testemunhar tanto machismo, tanta estupidez e tanta gente tão amadora no convívio coletivo.

É possível desmerecer a Virada, a política, a polícia e o povo pinçando estatísticas. É o jogo da divisão, da ruptura. Implica, na essência, que o controle, a ordem, devem ser o máximo denominador comum da sociedade. O discurso do medo funciona… como discurso. Na prática, é trágico. É mais a doença do que um sintoma de um território violento.

Insisto, o processo de transformação do século 21 não é revolucionário. É evolucionário. Como na natureza, requer tempo, coragem e resiliência para manter e acelerar as conquistas. Grandes ou pequenas, sempre graduais. A nossa urgência em resolver questões complexas precisa acolher os imponderáveis processos emergentes dos quais a cidade, e o mundo, são ao mesmo tempo causa e consequência.

E encerro essa mal digerida digressão no que, por razões íntimas e enteógenas, foi o melhor show da Virada: Gal Costa. Lamento pelos que perderam, mas ela estava varada de inspiração quando cantou “O Amor”, de Caetano Veloso a partir de um poema de Maiakovski. Sob a lua crescente, na segunda hora do festival e do meu ácido, emendou os versos que resumiram tudo o que, prolixamente, tentei dizer acima. Inclusive, e principalmente, em relação aos que morreram na madrugada de sábado para domingo.
Pensando em São Paulo, em mim, na difícil tradução do que queremos dizer quando afirmamos “Existe Amor em SP”, despenquei no choro.:

O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos acuar na vida
Como estrelar das noites inumeráveis
Ressucita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta
Ressucita-me lutando contra as misérias do cotidiano
Ressucita-me por isso
Ressucita-me quero acabar de viver o que me cabe, minha vida
Para que não mais existam
Amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra

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24 pensamentos sobre “Ressuscita-me

  1. Também achei o show da Gal incrível, atual e com muita energia, ela me surpreendeu…também acho que a Virada é necessária, mas vi muita, muita violência, a ponto de ir embora depois do show do Magal, porque achei que a coisa pudesse descambar, nós procuramos a polícia para tentar resolver uma briga envolvendo umas 50 pessoas em uma rua próxima ao largo do Arouche, eles disseram que não podiam sair de onde estavam e que não tinha o que fazer… eu acho que temos que sair à rua, mas não podemos assistir a arrastões, brigas, furtos e violencia e fingir que não aconteceu nada. Sou a favor da continuidade da Virada, mas com um controle inteligente das gangues, policiamento preventivo e móvel…grande abraço

    • A virada tem q acontecer a cada 3 meses e nao concentrar 50% da verba anual da cultura em 24 horas de evento.
      Se acontecesse a cada 3 meses, teríamos menos ocorrencias policiais, além de gerar uma frequencia cultural que é o que a cidade precisa!

  2. Bruno, não é nada pessoal, mas o fato de você postar este tipo de análise me preocupa, pois querendo ou não, você pode vir a ser um formador de opinião.
    Discurso histórico?
    Você já viu e ouviu discursos como o “não violência” de Mahatma Gandhi, ou “I have a dream”, de Martin Luther King? Discursos históricos. Mano Brown não falou nenhuma novidade, seu discurso foi desorganizado, e limitado em questão de conteúdo.
    Quanto ao seu comentário de que, “não a parto sem dor” e “reduzir um evento a um placar de B.O.’s”, me pergunto qual o seu nível de aceitação em relação a furtos, assaltos, homicídio, e vandalismo. Se realmente vamos precisar de dor para mudarmos nossa cidade e nosso país, salve-se quem puder.

  3. A Virada precisa acontecer. Concordo. São Paulo precisa sair às ruas, tomar os espaços.. São Paulo precisa ter espaços de convivência, mas gostaria apenas de deixar o relato de quem se viu no meio de uma briga de gangues na avenida Duque de Caxias após o show da Gal.
    A rua é de todos. Precisa ser de todos. O Espaço não é meu, seu ou dele, é nosso! E todos temos que ter nosso espaço respeitado…mas ao sair do show da Gal em direção ao arouche, me vi entre duas gangues brigando. Sem saber o que fazer e para onde ir, saímos todos correndo. Infelizmente uma das gangues, por estar em número inferior, correu na mesma direção que todos nós. Sem saber para onde ir, sem ter onde entrar, quem estava em volta apenas correu. Em um momento já não dava para saber quem era quem ali na correria e a chegada da Polícia só piorou. A agressão era praticamente certa naquele momento. Só não sabíamos de que lado viria: polícia ou de um dos grupos que se enfrentavam. Perder celular e bolsa ali era o menor medo.
    Por sorte nada aconteceu comigo e com meus amigos. O mesmo não posso dizer de algumas pessoas que foram literalmente atropeladas pela multidão. Pra mim, a virada não foi um evento bonito. Logo em seguida fui embora, não tinha mais clima para ficar ali, qualquer movimento de um grupo maior parecia ameaçador.
    Minha irmã em outro ponto viu um homem ser espancado depois de ter seu boné roubado. 15 contra 1. Só saiu vivo porque em algum momento conseguiu correr, todo ensanguentado.
    Como eu disse acima, todos temos o direito de participar. E todos temos que ser respeitados nesse direito.
    Frequento a virada desde a segunda edição e jamais tinha passado por situação semelhante. Policiamento não é a solução, mesmo pq nossa polícia não sabe agir e mais atrapalha do que ajuda. Excluir determinados grupos (seja quem se amedronta em face da violência ou os que praticam a violência) de participar também não. A sensação que fica é que faltou respeito. Respeito por quem está tentando se divertir, respeito pelos bens e principalmente pela integridade física do outro. São Paulo precisa aprender a viver junto, a se respeitar. Da virada pra mim ficou apenas uma impressão: a falta de respeito pelo outro.

  4. Pingback: “A falta de um é a falta de milhões” | Movimento Atados

  5. Volto a falar (já escrevi num montão de lugares): para QUATRO MILHÕES de pessoas na rua, por 24 horas, não terá sido um índice super pequeno de violência e intercorrências?? Uma pessoa morta e outra gravemente ferida por bala; uma pessoa morta e outra gravemente comprometida por overdose; 28 presos… versus 4.000.000.000 de pessoas…???
    No dia a dia esse número é superado…
    Estive lá e andei prá lá e prá cá, assisti shows, vi correrias, e vi muuuita polícia.
    abs,
    Maria Barros

    • Só porque estavam 4 milhões de pessoas na rua podemos ter morte?
      Isso é inadmissível!!!!!
      Mesmo que tivéssemos 10 milhões de pessoas na rua não podemos tolerar NENHUMA MORTE!
      Acho uma enorme ignorância alegar que 1 morte para 4 milhões de pessoas é aceitável!

  6. Só acho que gastar 50% da verba anual em 24 horas de evento não é certo.
    Esse tipo de ação parece pra mim extremamente eleitoreira.
    Vamos fazer o maior evento possível para ter mais espaço na mídia. Para atrair o maior numero de pessoas possível.
    Ao invés de criar a freqüência dos eventos culturais q precisamos, tudo se concentra em 24 horas, consequentemente atraindo bandido que vê na multidão a chance de sair ileso.

  7. Mesmo desarticulado (como alguém falou num comentário) o discurso de Brown foi realmente histórico porque ele chamou pela primeira vez a responsabilidade do “malandro” nesse processo de conciliação de São Paulo que está mesmo engatinhando. Ele como voz de todo um grupo cultural reconheceu os esforços que a cidade vem fazendo para acolher. Como li num outro blog por aí: a curadoria praticamente convidou a periferia para frequentar o centro como agente e espectador de cultura, em pé de igualdade com o homem-branco. Isso, nessa escala, é inédito.

    Esse processo é mesmo muito lento, como você disse muito bem, o paulistando ainda demonstra amadorismo no convívio no espaço público, isso se vê no dia-a-dia, no metrô, em qualquer lugar. A Virada é uma dose dinossáurica de remédio. Tome convívio, tome multiplicidade, tome diversidade, na jugular da cidade.

    Da minha parte, sou baiano e tenho alguns carnavais no currículo. Fui para a virada com espírito de carnaval, achando que ia ficar andando por aí e ter surpresas, mas aprendi que a Virada é outro esquema, precisa ir um pouco mais programadinho pra não perder as atrações que interessam.

    Também não fui vítima de violência mas vi um arrastão começar uns 10 metros na minha frente, como chuva que se vê na estrada. De novo a catimba do carnaval baiano me ajudou a me esquivar.

    Muito bom texto.

  8. Muito poético…

    Quero ver se tivesse sido assaltado ou tivesse sofrido qualquer tipo de violência se ainda assim escreveria um texto tão belo.
    Queria ler o que a mãe do jovem que levou um tiro na cabeça tem a dizer sobre esse texto…
    Eu é que não vou pagar o pato pela sociedade…
    Que o governo faça mais eventos como esse para as comunidades que carentes de cultura, levam violência por onde passam e transformaram aquilo num inferno.
    Eu estive lá, não vi show nenhum, e não tive coragem de aguardar pq enquanto eu andava vi gente se drogando, bebendo e vomitando, parada eu vi duas brigas horríveis, além da sensação de impotência, do medo…. a hora que me dei conta de que não tinha nenhum policial por perto, fiquei ainda mais assustada.
    Prefiro não ir… prefiro não aproveitar o que me é de direito… prefiro não presenciar… do que ter que dividir o meu pequeno espaço com essa gente carente de tudo… eu não vou pagar o pato pela sociedade!! Nãoooooooooooooooooooo! Eu prefiro ficar dentro da minha casa do que sofrer qualquer tipo de agressão.
    Analisando friamente, esse evento só daria certo se fossemos um país que tivesse o mínimo de tudo o que é necessário para vivenciar um evento desses. O nosso povo não tem cultura, não tem estudo, não tem saúde, não tem exemplos… a próxima será pior… pq quem não tem as oportunidades que tivemos olha com ódio, por isso a violência… imagina se um mano desses vai entender o que é cultura… o cara tá lá pra roubar e garantir o prato de comida no dia seguinte, ou mesmo a diversão dele num baile funk da vida… o povo que eu vi por onde eu passei tá muito longe de saber o que é cultura…

    • você é a pessoa que está mais longe de saber o que é cultura que eu já vi. Faz bem em ficar em casa. Um mano desse sabe vem mais de muita coisa do que você.

    • Bruna,
      É natural ter medo, como você teve. Mas foi sucumbindo ao medo e vendo os “manos” ou outros concidadãos com preconceito que chegamos ao nível de exclusão social que vivemos hoje. O convívio não é fácil, mas é fundamental.
      E se o cara não sabe o que é cultura, talvez essa seja uma oportunidade para ele aprender, assim como um dia você também aprendeu.

  9. Concordo com seu texto, mas preciso destacar o palco de forró! Foi a coisa mais linda, este palco veio pra agregar um capital cultural puramente brasileiro.

  10. Teu texto é lindo, a virada cultural é um patrimônio, não importam os prefeitos que estarão à frente, seja ele agora do Haddad, ou dos outros que virão. Mas, sou critico a virada cultural em um único dia, a cultura tem que respirar nos outros 364 dias no ano. Uma virada mais descentralizada em todos os finais de semana, ou seja, preparar o povo para o banquete, que seria esta esta virada.

  11. Acho que este é o primeiro contato consciente que tenho com seus textos. Que coisa bela, meu desejo foi de tê-lo escrito. Acho que a descrição mais sóbria do que é a “ocupação urbana” provocada pela Virada taí.

    E incontestavelmente O Amor foi a melhor performance na (minha) Virada, lágrimas correrão em um silêncio coletivo.

  12. ZéQ – Não fui à virada porque eu tenho alguma dificuldade de locomoção:mas gostaria de ter ido porque é uma das coisas mais sensacionais que se poderia pensar para os quase 20 milhões de caras da região metropólitana e mais o que vem de fora! Viche, que mundão. E isso ai: numa sociedade sofrida, cheia de desigualdades e de injustiças históricas e atuais, ver o Zé e o Mané juntos, basbaques olhando, vendo, ouvindo, sentindo cheiro de gente daqui e dali (porque nós temos cheiro sim), é um momento de igualdade, de justiça, ninguem é de ninguem e ao mesmo somos de todos.
    É isso ai, banho de virada pelo menos uma vez por semestre, grande, grandiosa, é disso que precisa São Paulo. Um viva ou como dizia nosso Monteiro Lobato: aleguá-guá-guá prá todo esse povo que ali esteve.

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