Política

Marina Laica

Marina

Triste constatar, todo dia, como o hiperfluxo de informação está matando o contexto e criando um ambiente de discussão cada vez mais histérico e superficial.

Vide a onda de amigos esculhambando de cara a Marina Silva a partir de um único texto curto e com uma manchete sensacionalista.
Em primeiro lugar: não li nada que justifique dizer que Marina “defendeu” Feliciano.
Ao que parece (pois não vi a declaração completa dela) disse que ele está sendo acusado de ser evangélico. E que isso não é justo. E que está se difundido um preconceito em relação aos religiosos no Brasil.

Alguns pontos aqui.

Marina tem razão. Há mesmo um movimento anti-religioso que cresce rápido no país. Mas Marina foi muito infeliz em ilustrar isso com o exemplo de Feliciano.

Marco Feliciano não é vítima de preconceito por ser evangélico. Ao contrário. Ele é um dos culpados por evangélicos serem cada vez mais discriminados. Ele e uma turma de pastores picaretas que deveria ser combatida, antes de tudo, por evangélicos que não querem ser vistos como parte desse coro.
O silêncio de tantos fiéis e pastores acaba deixando quase toda a oposição pública aos Felicianos da vida não mão dos laicos, dos gays e dos que não conseguem tolerar intolerância. O que, naturalmente, acirra ânimos e dá lastro ao preconceito que ela aponta.

Pessoalmente me vejo em um desconfortável meio de campo. Não gosto de ver ninguém ser rotulado, julgado e menosprezado por conta de opções de fé. Mas simplesmente porque faço questão de respeitar pessoas. Não religiões.

Tenho convicção de que quanto menos igreja no mundo, melhor. Quanto menos influência evangélicos, católicos, judeus, muçulmanos tiverem no Brasil, melhor. Quanto menos gente devota de um livro capaz de justificar as maiores atrocidades e preconceitos, melhor. Quanto menos ovelhas seguindo pastores, melhor.

Mas é bom que se diga: também vi Marina Silva deixando bem claro que não defende as posições de Feliciano nem sua permanência na cadeira da Comissão de DH em outras oportunidades. Poderia ter sido mais incisiva? Claro.

Mas ela dizer, equivocadamente, que ele é vítima de preconceito religioso não me parece tão grave quando o silêncio sepulcral de Dilma e da cúpula do PT em relação ao mesmo assunto.
Acho tosco, desonesto quase, ver tanta gente que se considera de esquerda apontar Marina como reacionária pelo simples fato de ser evangélica. E seguir babando ovo, ou fazendo vista grossa, para Dilma.

Eu confesso: anti-teísta confesso que sou, me sinto muito mais confortável com uma liderança política evangélica que se cerca de ambientalistas, cientistas e uma geração política essencialmente humanista do que com uma presidente da república atéia (não confessa) que governa com o que há de mais obscurantista na religião, ruralismo e facções partidárias.

Quando eu, com frequência, espinafro o poder evangélico no Brasil é porque para mim ele representa o tipo de picaretice, de sordidez e crueldade que vejo manifestadas em grande parte da base aliada. Atrocidades humanas e ambientais das quais Marina sempre foi inimiga declarada.

Boté fé. Evangélica, na prática ela ainda é muito mais laica do que nossa presidenta materialista histórica.

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4 pensamentos sobre “Marina Laica

  1. Concordo com quase tudo. Até compartilharia pois havia visto este vídeo da Marina Silva e percebido a injustiça e o oportunismo. Porém há um pequeno, mas grave, detalhe que o assemelha às pessoas que falam por preconceito, sem o conhecer seu objeto: o “livro”, que deduzo seja a Bíblia (em especial o novo testamento,no qual se apóia o cristianismo), não justifica nenhuma atrocidade ou injustiça cometida pela humanidade… Pelo contrário, percebo que toda concepção humanista moderna tem origem no cristianismo. Basta observar a História para perceber as barbáries que eram cometidas generalizadamente por estados e exércitos, e que hoje ainda ocorrem, mas são eticamente condenadas. Se hoje temos o amor ao próximo como um valor na sociedade ocidental, devemos a Jesus e a seus ensinamentos. Não pertenço a nenhuma igreja ou congregação e concordo que a humanidade usou e usa, mesmo em nome de Cristo, de crueldade e injustiças. Mas condenar o livro, a fonte de informação, é o mesmo que condenar uma constituição porque um governo age equivocadamente.
    No mais, parabéns pelo texto, acho realmente que falta lucidez e senso crítico na massa encefálica brasileira. Vejo as pessoas subscrevendo passionalmente, e perigosamente, esses discursos pretensamente “libertadores das minorias”

    • Bruno, discordo muito do seu argumento. Ao contrário… a “concepção humanista moderna” como você coloca tem origem, na minha opinião, principalmente na oposição ao cristianismo, justamente.
      O iluminismo, a ciência e a ideia de igualdade quase sempre avançam sobre a resistência, muitas vezes violenta, de igrejas e pessoas que julgam estar respaldadas por escrituras. Os maiores filósofos modernos que elaboraram as bases morais do humanismo eram quase todos ateus, agnósticos ou ferozes críticos das religiões.

      O livro a que me refiro não é um só. Pode ser qualquer um venerado como sendo a Palavra de Deus. Velho e novo testamentos, Corão, Bhagavad Gita. Todos eles mistificados o suficiente, blindados o suficiente e contraditórios o sufuciente para justificar, sim, atrocidades. É o destino de qualquer código moral estabelecido por decreto, autoproclamado como absoluto. E, invariavelmente, escrito em tempos profundamente mais ignorantes do que hoje.
      Já que você cita a Bíblia como exemplo, vamos a ela. O Velho Testamento nem preciso comentar. Genocídios, assassinatos, tortura, escravidão, vinganças desmedidas… todas cometidas sob ordens ou aprovação de Deus.
      O Novo Testamento é certamente mais “leve”. Mas, para mim, contem o que é a essência da perversidade da Bíblia como um todo. Foi Jesus e seus apóstolos que trouxeram para o jogo a ideia de inferno. De danação eterna. De tortura infinita caso uma alma não se submeta ao amor compulsório que Jesus demanda.
      Para mim isso nunca poderia ser a base de uma moral humanista, racional. Muito menos compassiva.

      Eu poderia citar muitos autores e exemplos, mas fico com o que, para mim, é o mais convincente oponente dessa ideia que você defende. Bertrand Russel em “Porque não sou Cristão”. Um livro curto, claro e abslutamente devastador à doutrina de Cristo. Recomendo demais.

      • Me incomoda muito quando religiões se apropriam de valores e os expressam como se fossem os detentores absolutos e exclusivos dos mesmos. Também não posso racionalmente crer que a Bíblia seja uma reprodução dos ensinamentos de Cristo ou manual de conduta com o aval do figura. Me corrijam se eu estiver errado, mas até onde sei o primeiro evangelho do Novo Testamento foi escrito décadas depois da morte de Jesus, por uma pessoa que ouviu a história de um dos apóstolos, em outra língua. Imagine o quanto de informação não foi distorcida ou alterada nesse processo, involuntariamente ou não. Isso sem contar que a seleção de textos que seriam incluídos na Bíblia foi um processo tão editorial e frio como qualquer outro.
        Eu particularmente creio que Jesus, assim como outros líderes religiosos, eram dotados de um conhecimento incomum, e não de caráter divino ou místico (nem me atreveria a tentar definir o que é divio, mas enfim). Nessa qualidade, se valeu de uma linguagem muito simples e pragmática pra passar seus ensinamentos pra pessoas que tinham uma visão de mundo extremamente limitada e simplória. A didática dele ( e de outros que culminaram com o advento de diversas religiões) me parece que era a única cabível e eficiente naquele momento. A igreja, lamentavelmente, perpetua essa literalidade de que o cara se valeu há 2000 anos atrás, e o faz de maneira nefasta.
        Não sou cristão e confesso que tenho aversão a religiões. Dito isso, não posso crer (e digo crer por ser uma posição desprovida de qualquer elemento objetivo que a ampare) que Jesus tenha pregado a danação eterna de quem não creia nele. Seja pela linguagem de que ele se valeu, seja pelas inevitáveis alterações que o discurso sofreu quando passado de uns a outros, até ser definitivamente colocado no papel, seja pela gama de interesses que instituições religiosas ostentam para angariar e manter fiéis. Creio sim que era uma pessoa com muito conhecimento, que se valeu das ferramentas que possuía para transmití-lo, e que foi mal interpretado e usurpado por pessoas e instituições que ao longo dos séculos tinham e tem interesses bem diferentes dos que ele pregava. O respeito, amor, compreensão e tolerância também foram pregados por ele. Certamente não exclusivamente, mas estão lá tanto como em outros lugares.

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