Drogas/Política

Eppur Si Muove

GalileuAbre

O proibicionista é, antes de tudo, um chato. 
Quem está do outro lado da trincheira bem sabe da indignação tediosa que inspiram aqueles que se protegem dos fatos com o escudo do consenso. Um monolítico senso comum, que dá lastro a leis correspondentes, que nos obriga a gastar muita saliva, e conter muita bile, para dissertar sobre o óbvio. Sem parar…
Sobre a crueldade e ineficácia da internação compulsória; a desinformada fobia ao crack; sobre as auto-evidentes vantagens da redução de danos; sobre a ciência em torno da maconha; sobre os reais mecanismos da dependência, sobre o fracasso da Guerra às Drogas… tudo muito importante, tudo muito relevante, muito sério e urgente. Mas um papo cansativo e improdutivo demais se não formos capazes de dar um próximo passo. Senão nas leis, ao menos na discussão.
E aqui quero apontar o dedo do meio ao que me parece o mais ardiloso clichê sobre a questão das drogas. O que mais trava a pauta e deixa tudo, insisto, chato demais. A ideia de que a legalização é um tema “polêmico”, “controverso”.
Não é. Nem de longe. E explico.
Existem perguntas que, de fato, provocam posições contrastantes, antagônicas e perfeitamente justas. Pertencem a campos filosóficos que não costumam gerar conclusões puramente lógicas. Ou, mais comum, partem de informações contraditórias ou incompletas que permitem, sim, opiniões distintas e igualmente respeitáveis.
São polêmicas. E que, com o passar do tempo, até elas vão se rendendo aos fatos e deixam de ser assunto de debate. E se tornam questões impermeáveis à meras opiniões. Pois podem, e devem, ser respondidas através dos fatos, argumentos, da lógica, da investigação científica e dos exemplos históricos. Nesses casos, há sim um lado certo e outro errado. Não há mais polêmica. E uma nova controvérsia, asfixiada pelo antigo debate, ganha, enfim, seu espaço.
Vejamos: a ciência não tem a “opinião” de que a Terra gira em torno do Sol. A ciência SABE que a Terra gira em torno do Sol. Quem insiste em questionar qual o foco da nossa elipse planetária não transforma a questão em polêmica. Nem sua “opinião” merece tal alcunha. É, pelo bem do progresso, desprezado no debate astronômico para que gastemos nosso tempo em questões que mereçam debates mais acalorados e interessantes. Como a hipótese holográfica do universo, por exemplo.
Mas… é bom avisar. Nem sempre foi assim. O debate sobre o heliocentrismo já foi chamado de “polêmico”, “controverso”. De um lado, o status quo. Os livros, o poder, os milhões de dedos em riste decretando sobre o próprio chão em que pisavam, a Terra: não se move!
Do outro, Galileu com outra… opinião. Tinha os dados, as evidências, as contas, Copérnico, os planetas do seu lado. Tinha um modelo demonstrado matematica e logicamente… Dizia que a Terra parecia não se mexer porque a inércia os iludia.
O consenso o mandou para a cadeia.
O proibicionismo para mim é o mesmo caso. A insistência irracional em um modelo que não para de pé diante dos fatos. Que se sustenta pela ilusão da inércia do consenso político e cultural. Pelo medo e gritos de tantos que precisam apontar um demônio para se sentir do lado de Deus. E, em última instância, pela força bruta dos que tem o cetro na mão. Ao ponto de criminalizar, inclusive, a investigação científica das drogas. Heresia, alguém?
E hoje, diferente dos tempos de Galileu, não dependemos de um ou outro gênio visionário para nos tirar das trevas. As evidências e os profetas estão por toda parte. O proibicionismo é demolido diariamente em relatórios científicos e na casa do vizinho. Nos gastos com repressão e na falência prisional. Na corrupção policial e no monopólio criminal do comércio de drogas. No registro arqueológico e na hipocrisia contemporânea. Na neurociência e na cracolândia. Na perfeita narrativa fracassada da Guerra às Drogas.
Ilustremos, já que falamos em Santo Ofício?
Hoje saiu a sentença de Ras Geraldinho, um senhor de 53 aos que cultivava maconha para uso sacramental em Americana. Era um líder espiritual de uma pequena comunidade canabista. Nunca cometeu violência alguma. Nunca escondeu seu plantio ou sua devoção. Fez questão de manter seu hábito fora da rede do crime organizado.
Pegou 14 anos de cadeia e vai ter sua casa confiscada. Pena muito mais dura do que muito caso de assassinato e estupro.
Em tempo, Galileu não perdeu sua casa… passou o resto da vida em prisão domiciliar.
Ras Geraldinho na Marcha da Maconha de SP em 2012

Ras Geraldinho na Marcha da Maconha de SP em 2012

Insisto: não é mais polêmico. É uma questão de bom senso e isso precisa ficar claro inclusive para os anti proibicionistas. Legalização não pode ser o que você ACHA, mas o que o você SABE.
É preciso ir além no discurso, desafiar não só os clichês sobre drogas, mas a própria ideia de controvérsia. O conforto das “opiniões” divergentes sobre esse assunto prescreveu oficialmente. Não temos mais tempo para ideologias. E quando alguém lhe disser que o proibicionismo é sólido demais, lembre-se do que o próprio Galileu, depois de sua sentença (na verdade não) disse à Inquisição:
“Mas se move”.
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Um pensamento sobre “Eppur Si Muove

  1. Muito bom o texto.

    O bom seria se nos atesemos a fatos/história. Criar políticas pragmáticas, pensando em como as coisas realmente funcionam (e não somente em como gostaríamos que fossem).

    Realmente acabamos vendo discursos/argumentos não-fundados na ciência. Mas sim em achismos, senso comum, ou no melhor dos casos, baseados em casos que são exceção,, mas que são dados como regra.

    Mas continuemos.. sempre podemos passar um ponto de vista novo para as pessoas, devagar, sem assustar… nem que seja para criar dúvidas, e fazer o vivente pensar um pouco rs

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